💊 Guia de Estudo — Unidade 2: Farmacocinética I

Farmacologia · Unidade 2 (pág. 31–60)  |  Dra. Elaine Campana Sanches Bornia · UniCesumar · Nutrição

💊 Farmacocinética I: o que o organismo faz com o fármaco

Estuda absorção, distribuição, biotransformação e eliminação (Unid. 3). Vias e formas farmacêuticas, pH/pKa, biodisponibilidade, Vd e enzimas CYP determinam início, intensidade e duração da ação.

📋 Visão geral: o que é farmacocinética ▶
Conceito e objetivo
  • Farmacocinética = o que o organismo faz com o fármaco
  • Etapas (ordem): Absorção → Distribuição → Biotransformação (metabolização) → Eliminação (a eliminação será estudada na Unidade 3)
  • Determinam: velocidade do início da ação, intensidade do efeito e duração da ação
  • Permitem ao clínico definir: via de administração, quantidade e frequência da dose, duração do tratamento e redução de efeitos tóxicos
  • Forma farmacêutica + via de administração interferem na farmacocinética (dose única ou múltiplas doses)
Ponto de prova: as 4 etapas na ordem correta e o que elas determinam (início, intensidade e duração da ação).
Pegadinha: a Unidade 2 estuda absorção, distribuição e biotransformação; a eliminação fica para a Unidade 3.
Caso clínico da unidade: diclofenaco
  • Torção de tornozelo → prescrito diclofenaco sódico 75 mg injetável (glúteo, via parenteral): efeito muito mais rápido e efetivo
  • Paciente insistiu na via oral → 50 mg a cada 8 h, após as refeições
  • Tomou em jejum → dor estomacal (anti-inflamatório não esteroidal irrita a mucosa gástrica) e dor no tornozelo persistente (início de ação mais lento e menor biodisponibilidade oral)
Ponto de prova: alguns AINEs devem ser tomados com o estômago cheio para minimizar a ação irritativa sobre a mucosa.
Mapa conceitual proposto pelo livro

FARMACOCINÉTICA I → Conceito; Fases (absorção, distribuição, metabolização); Fatores que influenciam cada fase; Vias de administração; Formas farmacêuticas.

💊 Formas farmacêuticas e vias de administração ▶
Classificação das vias
GrupoVias incluídasCaracterística
EnteralOral, sublingual, retalAbsorção no trato gastrointestinal
ParenteralIntravenosa, intramuscular, subcutânea, intradérmicaUsa agulhas; introduz o fármaco direto na circulação sistêmica, evitando barreiras orgânicas
TópicaCutânea, respiratória, conjuntival, genitourináriaEfeito localizado
Ponto de prova: enteral = oral + sublingual + retal; parenteral = IV + IM + SC + ID.
Pegadinha: a via sublingual é enteral no livro, e a via respiratória/inalatória é tópica.

A via é escolhida pelas propriedades do fármaco (hidro/lipossolubilidade) e pelos objetivos terapêuticos (início rápido, tratamento longo, restrição a local específico, redução de toxicidade).

Formas farmacêuticas e liberação oral (Figura 1)
  • Forma farmacêutica = veículo do fármaco: cápsulas, comprimidos, drágeas, soluções, suspensões (entram em contato) e adesivos transdérmicos, cremes, implantes, pomadas (mantidos em contato)
  • Comprimido/cápsula comuns: liberam o princípio ativo já no estômago
  • Gastrorresistente (entérico): libera só na 1ª porção do duodeno ou no intestino grosso
  • Liberação controlada: liberação ao longo de todo o trato gastrointestinal
  • Solução: fármaco já disponível para absorção ao ser administrado
Pegadinha: a forma farmacêutica muda o local de absorção e, portanto, a biodisponibilidade.
Quadro 1: vias de administração (padrão de absorção, vantagens e desvantagens)
ViaAbsorçãoVantagensDesvantagens
OralVariável (hidro/lipossolubilidade, ionização, pH local, área)Segura, mais comum, conveniente, econômicaAbsorção limitada; alimentos interferem; exige adesão; biotransformação antes da absorção sistêmica; pode lesar o TGI
SublingualPoucos fármacos (ex.: nitroglicerina) têm absorção direta e rápida; maioria incompleta e erráticaEvita 1ª passagem e acidez gástrica; saliva com pH neutro; efeito imediatoSó pequenas doses; pode perder fármaco se deglutido
RetalVariávelEvita parcialmente 1ª passagem e acidez gástrica; ideal se há êmese ou paciente comatosoPode irritar mucosa retal; pouco aceita
IntravenosaSem absorção (100%)Efeito imediato; grandes volumes; irritantes; emergências; permite titulação; proteínas e peptídeos de alta massa molecularInadequada para oleosos/pouco absorvidos; bôlus pode causar efeitos adversos; injetar lentamente; assepsia estrita
IntramuscularSolução aquosa: imediata; depósito: lenta e prolongadaVolume moderado; veículos oleosos; certos irritantes; preferível à IV na autoadministraçãoAfeta teste de creatinaquinase; dolorosa; hemorragia (evitar com anticoagulante); necrose se irritante
SubcutâneaSolução aquosa: imediata; depósito: lenta e prolongadaFármacos de liberação lenta; algumas suspensões pouco solúveisDor e necrose se irritante; inadequada para grandes volumes
InalatóriaPode haver absorção sistêmica (nem sempre desejada)Rápida; ideal para gases; eficaz em problemas respiratórios; titulável; doses menores e menos efeitos sistêmicos se alvo pulmonarPrincipal via de adictos; difícil regular dose; dificuldade em crianças e idosos
CutâneaErrática e variávelMinimiza efeitos sistêmicos; evita 1ª passagemIrritação local, alergias, fotossensibilidade

Legenda: efeito de primeira passagem = passagem pelo fígado; êmese = vômito; comatoso = em coma; bôlus = IV em dose grande; adicto = vício em substância.

Ângulos de aplicação parenteral (Figura 2)
ViaSiglaÂngulo
IntramuscularIM90°
SubcutâneaSC45°
IntravenosaIV/EV25°
IntradérmicaID10° a 15°
Ponto de prova: decore a sequência decrescente: IM 90° → SC 45° → IV 25° → ID 10–15°.
🧠 Questionário — Formas farmacêuticas e Vias de Administração (5 perguntas)

Clique em uma alternativa para responder. Você verá na hora se acertou ou errou, com uma explicação.

1. Quais vias compõem a administração enteral?

2. Qual é o ângulo de inserção da agulha na via intramuscular?

3. Por que a nitroglicerina é administrada por via sublingual?

4. Qual via é ideal para pacientes com êmese ou em coma, segundo o Quadro 1?

5. Uma forma farmacêutica com revestimento gastrorresistente libera o fármaco principalmente:

🔬 Absorção: transporte, pH e Henderson-Hasselbalch ▶
Conceito e fatores
  • Absorção = transferência do fármaco do local de administração para a corrente sanguínea
  • Depende do ambiente de absorção, da característica química do fármaco e da via, e define a biodisponibilidade
  • IV: não há absorção, 100% chega à circulação sistêmica; demais vias = absorção parcial
  • Via oral: área disponível (intestino > estômago), fluxo sanguíneo local, estado físico (solução, suspensão, sólido), hidrossolubilidade (forma ionizada), lipossolubilidade (forma não ionizada), concentração no local e alimentos no estômago
  • Precisa atravessar membranas lipídicas (mucosa GI, túbulo renal, barreira hematoencefálica, placenta)
Pegadinha: ionizada = hidrossolúvel (não é absorvida); não ionizada = lipossolúvel (é absorvida).
Alimentos e absorção: exemplos do livro
SituaçãoExemploMotivo
Tomar com estômago cheioAlguns anti-inflamatórios não esteroidaisMinimiza a ação irritativa na mucosa
Tomar com alimento facilitadorFerro com frutas cítricas (anemia)Facilita a absorção
Tomar em jejumTiroxina (hipotiroidismo)Absorção ideal
Mecanismos de transporte (Figura 3)
  • Transporte passivo: transporte paracelular e difusão simples (maior parte da absorção oral, por difusão passiva em membranas lipossolúveis)
  • Transporte ativo/mediado: difusão facilitada e transportadores de fármacos
  • Glicoproteína P: proteína transmembrana que bombeia fármacos para fora das células (transporte reverso) → reduz a absorção e impede a entrada de fármacos no SNC (barreira hematoencefálica)
Partição pelo pH
  • A maioria dos fármacos são ácidos ou bases fracos
  • Ácidos fracos: melhor absorção em pH ácido (estômago, pH 1,0–2,0, baixa ionização)
  • Bases fracas: melhor absorção no intestino (menos formas ionizadas); mal absorvidas no estômago
  • Segundo o livro: pH estômago 1,0–2,0; pH intestino 3,0–6,0
CondiçãoÁcido fracoBase fraca
pH < pKaNão ionizado (HA) → absorvidoIonizado (BH⁺) → não absorvido
pH > pKaIonizado (A⁻) → não absorvidoNão ionizado (B) → absorvido
pH = pKa[HA] = [A⁻]: 50% de cada[BH⁺] = [B]: 50% de cada
Ponto de prova: pH < pKa: ácido não ionizado e base ionizada. pH > pKa: ácido ionizado e base não ionizada.
Pegadinha: a partição pelo pH não é o principal determinante do local de absorção: a área (vilosidades do íleo) e o fluxo sanguíneo pesam mais. O estômago ainda tem camada espessa de muco.
Equação de Henderson-Hasselbalch
  • Ácido fraco: pKa = pH + log₁₀ ([AH] / [A⁻])
  • Base fraca: pKa = pH + log₁₀ ([BH⁺] / [B])
  • Calcula a proporção ionizada (não absorvida) × não ionizada (absorvida) conforme o pH e o pKa

Exemplo do curare (amônio quaternário, base fraca): pH estômago = 4,0; pKa = 6,0 → 6,0 − 4,0 = log([BH⁺]/[B]) → 10² = 100 → 100 ionizadas : 1 não ionizada → quase não é absorvido; por isso os indígenas comiam a caça sem intoxicação.

Ponto de prova: saber isolar o log: diferença entre pKa e pH = expoente de 10 da razão. Curare: razão 100:1.
Esvaziamento gástrico e fluxo sanguíneo
  • A absorção da aspirina (ácido) aumenta com fármacos que aceleram o esvaziamento gástrico (metoclopramida) e diminui com os que o reduzem (propantelina), apesar do pH ácido do estômago favorecer ácidos fracos
  • Fluxo sanguíneo do intestino é muito maior que o do estômago → maior absorção intestinal
🧠 Questionário — Absorção (5 perguntas)

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1. Qual via de administração tem 100% de biodisponibilidade por definição?

2. Um ácido fraco é melhor absorvido quando:

3. No exemplo do curare (pH 4,0; pKa 6,0), qual a proporção ionizada : não ionizada?

4. Qual o papel da glicoproteína P na absorção?

5. A tiroxina usada no hipotiroidismo deve ser tomada:

📈 Biodisponibilidade e metabolismo de primeira passagem ▶
Fração biodisponível
  • Biodisponibilidade = quantidade de fármaco inalterado que chega à circulação sistêmica, pronta para distribuição
  • IV = 100%; via oral pode variar de 40 a 50% da dose
  • Exemplo: 100 mg orais, 50 mg absorvidos inalterados → biodisponibilidade 50%
  • É essencial para calcular doses por vias diferentes da IV
  • Afetada por atividade enzimática da parede intestinal e do fígado, pH gástrico e motilidade intestinal
Ponto de prova: biodisponibilidade (%) = dose absorvida inalterada ÷ dose administrada × 100.
Efeito de primeira passagem (Figura 4)
  • Fármaco oral absorvido passa pela circulação portal → fígado antes da circulação sistêmica
  • Se for rapidamente biotransformado no fígado ou na parede intestinal, cai a quantidade inalterada e a eficácia oral
  • Nitroglicerina oral: 90% de depuração numa única passagem hepática, só 10% chega ao sangue → usa-se via sublingual
  • Soluções: dose maior ou outra via
Pegadinha: a via IV não passa pelo fígado antes; a via oral passa. Primeira passagem = fígado (e parede intestinal).
Outros fatores que alteram a biodisponibilidade
FatorExemplo
Instabilidade química no pH gástricoBenzilpenicilina: melhor via intramuscular
Destruição por enzimas do TGIInsulina: melhor via subcutânea
Fatores não químicosTamanho da partícula, tipo de sal, revestimento entérico, excipientes (aglutinantes e dispersantes) → mudam dissolução e velocidade de absorção
Equivalência, biodisponibilidade e bioequivalência
  • Testes de biodisponibilidade e bioequivalência permitem a intercambialidade entre referência, genéricos e similares
  • Equivalência farmacêutica: mesmo fármaco (mesma base, sal ou éster), mesma dosagem e forma farmacêutica → mesma eficácia clínica e mesmo potencial de efeitos adversos
🧠 Questionário — Biodisponibilidade e Primeira Passagem (5 perguntas)

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1. Se 100 mg de um fármaco são dados por via oral e 50 mg são absorvidos inalterados, a biodisponibilidade é:

2. O que é metabolismo de primeira passagem?

3. Qual a melhor via para a insulina, segundo o livro?

4. Quanto da nitroglicerina oral chega à corrente sanguínea?

5. Medicamentos com equivalência farmacêutica têm:

🩸 Distribuição: perfusão, barreiras, proteínas e Vd ▶
Distribuição pelos tecidos
  • O fármaco vai ao líquido intersticial e intracelular, músculo, osso, SNC, tecido adiposo, unhas e pelos
  • Alto fluxo (distribuição rápida): cérebro, coração, rins. Baixo fluxo (lenta): pele, músculo esquelético, tecido adiposo
  • Débito cardíaco baixo (insuficiência cardíaca) reduz a velocidade de distribuição
  • Fármacos muito lipossolúveis difundem mais para o tecido adiposo que os hidrossolúveis
Ponto de prova: órgãos bem vascularizados (cérebro, coração, rins) recebem o fármaco primeiro.
Barreiras: capilares, barreira hematoencefálica e placenta
  • Fígado e baço: capilares descontínuos e grandes, passam grandes proteínas e fármacos
  • Cérebro: capilar contínuo, sem fendas (barreira hematoencefálica): só passam fármacos lipossolúveis ou com transportador (ex.: levodopa usa o transportador de aminoácidos neutros)
  • Fármacos ionizados ou polares geralmente não entram no SNC
  • Placenta: permeabilidade menos seletiva que a barreira hematoencefálica → risco ao desenvolvimento fetal
Pegadinha: a placenta é menos seletiva que a barreira hematoencefálica.
Ligação a proteínas plasmáticas (Figura 6)
ProteínaLiga preferencialmente
AlbuminaFármacos ácidos (forte afinidade)
Alfa-1-glicoproteína ácidaFármacos básicos
GlobulinasHormônios
  • Só a forma livre é distribuída aos tecidos e produz efeito
  • Alta afinidade pela proteína → menor distribuição tecidual; baixa afinidade → maior distribuição
  • Ligação a proteínas também gera interações medicamentosas
  • Acúmulo tecidual pode prolongar a ação (reservatório) ou causar toxicidade: acroleína (metabólito da ciclofosfamida) acumula nas células renais
Pegadinha: ácidos → albumina; bases → alfa-1-glicoproteína ácida. Fármaco ligado à proteína não age nem se distribui.
Volume de distribuição aparente (Vd)
  • Vd = DA / Cp (dose administrada ÷ concentração plasmática); unidade: litros
  • Volume imaginário: volume necessário para conter todo o fármaco na mesma concentração do plasma; pode superar o volume corporal
  • Homem de 70 kg: plasma 3 L; sangue ~5,5 L; extracelular (sem plasma) 12 L; água corporal total ~42 L
  • Exemplo: 30 mg com Cp 0,05 mg/L → Vd = 30 ÷ 0,05 = 600 L (~10× o volume corporal total; fármaco concentrado em músculo e tecido adiposo)
  • Vd alto → t½ alto (pouco fármaco chega ao fígado/rins para eliminação) → ação mais prolongada
  • Vd varia com ligação a receptores, proteínas, gordura, idade, sexo, composição corporal e doenças
Ponto de prova: Vd = dose ÷ concentração plasmática. Vd alto → meia-vida longa.
Dose de ataque x dose de manutenção
  • DA = Vd × Cp (dose de ataque = volume de distribuição × concentração plasmática terapêutica desejada)
  • Dose de ataque: maior, no início, para atingir rápido a concentração terapêutica de equilíbrio
  • Dose de manutenção: mantém a concentração; a dose seguinte à de ataque é a dose terapêutica normal
  • A dose de ataque não deve ser mantida como dose de manutenção
Pegadinha: Vd = DA ÷ Cp e DA (ataque) = Vd × Cp: a mesma sigla DA significa coisas diferentes (dose administrada × dose de ataque).
🧠 Questionário — Distribuição (5 perguntas)

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1. Qual proteína plasmática liga preferencialmente fármacos ácidos?

2. Para um fármaco com 30 mg administrados e Cp de 0,05 mg/L, qual o Vd?

3. Qual a equação da dose de ataque?

4. Qual forma do fármaco é distribuída aos tecidos e produz efeito?

5. Por que levodopa consegue atingir o cérebro?

⚗️ Biotransformação (metabolização): Fase I, Fase II e CYP450 ▶
Por que biotransformar?
  • Para ser absorvido, o fármaco precisa ser lipossolúvel; para ser excretado, precisa ser hidrossolúvel
  • A biotransformação torna fármacos lipossolúveis em hidrossolúveis, evitando reabsorção no néfron (que prolongaria a ação)
  • Exemplos: tiopental e fenobarbital teriam t½ muito longas sem a conversão metabólica
  • Principal órgão: fígado, pelo sistema citocromo P450 (CYP); também TGI, pulmões, pele, rins e cérebro
Pegadinha: a biotransformação ocorre principalmente no fígado, não no intestino. O objetivo é deixar o fármaco mais hidrossolúvel, nunca mais lipossolúvel.
Fase I x Fase II
Fase IFase II
TipoReações de funcionalizaçãoReações de conjugação
ReaçõesOxidação, redução, hidrólise (hidroxilação, desalquilação, desaminação)Conjugação com ácido glicurônico, sulfúrico, acético ou aminoácido
O que fazIntroduz ou desmascara grupo polar (–OH, –NH₂, –SH)Forma composto muito polar
AtividadePode aumentar, diminuir ou manter a atividadeEm geral inativa
ResultadoMetabólito mais polar; se bem polar, já é excretadoConjugado hidrossolúvel pronto para eliminação
  • O fármaco pode ir direto à Fase II (sem Fase I) ou passar pela I e depois II
  • Exemplo: aspirina → ácido salicílico (Fase I) → glicuronídeo (Fase II)
Ponto de prova: Fase I = oxidação/redução/hidrólise (expõe grupo polar). Fase II = conjugação (ácidos glicurônico, sulfúrico, acético ou aminoácido).
Pegadinha: Fase II não torna o fármaco mais lipossolúvel: aumenta a polaridade para facilitar a excreção.
Pró-fármacos
  • Administrados na forma inativa e ativados por biotransformação (Fase I) em metabólito ativo
  • Exemplo: clopidogrel, ativado pela CYP2C19
Isoenzimas CYP (Quadro 2)
  • 74 famílias de genes CYP; CYP1, CYP2 e CYP3 são as principais no fígado humano
  • Um fármaco pode ser substrato de mais de uma isoenzima
IsoenzimaFármacos
CYP1A2Cafeína, paracetamol (NAPQI), tacrina, teofilina
CYP2B6Ciclofosfamida, metadona
CYP2C8Paclitaxel, repaglinida
CYP2C19Omeprazol, fenitoína
CYP2C9Ibuprofeno, tolbutamida, varfarina
CYP2D6Codeína, debrisoquina, S-metoprolol
CYP2E1Álcool e paracetamol
CYP3A4, 5, 7Ciclosporina, nifedipino, indinavir, sinvastatina
Polimorfismo genético
  • Há variabilidade genética da atividade P450 entre indivíduos e grupos raciais, alterando eficácia e risco de efeitos adversos
  • Prevalência citada: 5 a 10% em brancos europeus x < 2% em asiáticos do Sudoeste
  • Clopidogrel: o FDA exigiu advertência em tarja preta pelo polimorfismo da CYP2C19
  • Maus biotransformadores (baixa CYP2C19) não ativam o pró-fármaco → mais eventos cardiovasculares (choque, infarto)
Indução e inibição enzimática
InduçãoInibição
Efeito no metabolismoAumentaReduz
Efeito em outros fármacosDiminui a atividade (perda de eficácia)Aumenta a ação e a concentração
Exemplos clínicosRejeição de transplante; convulsões (anticonvulsivantes); gravidez indesejada (contraceptivos); trombose (varfarina)Omeprazol inibe 3 isoenzimas que metabolizam a varfarina → aumenta varfarina → hemorragia
  • Mais de 200 fármacos causam indução enzimática
Ponto de prova: indutor → perda de eficácia do outro fármaco. Inibidor → aumento de efeito/toxicidade. Omeprazol + varfarina → risco de hemorragia.
🧠 Questionário — Biotransformação (5 perguntas)

Clique em uma alternativa para responder. Você verá na hora se acertou ou errou, com uma explicação.

1. Qual o principal órgão e sistema enzimático da biotransformação?

2. Qual das reações é característica da Fase II?

3. Qual o objetivo final da biotransformação?

4. Por que o clopidogrel é menos eficaz em maus biotransformadores de CYP2C19?

5. O omeprazol aumenta o risco de hemorragia com varfarina porque:

📝 Atividades do livro resolvidas ▶
Atividade 1: AAS (pKa 3,5) em pH 1,5 x pH 7,5
  • Ácido fraco: pKa = pH + log([AH]/[A⁻])
  • pH 1,5: 3,5 − 1,5 = 2 → [AH]/[A⁻] = 10² = 100:1 (predomina a forma não ionizada)
  • pH 7,5: 3,5 − 7,5 = −4 → [AH]/[A⁻] = 10⁻⁴ → [A⁻]/[AH] = 10.000:1 (predomina a ionizada)
  • Conclusão: o AAS é melhor absorvido no estômago (pH 1,5)
Atividade 2: figura do pH x pKa (gabarito: alternativa c)
  • I (A, pH < pKa → ácido não ionizado): correta
  • II (melhor absorção quando pKa = pH): falsa (50% ionizado)
  • III (B, ácido, melhor absorção): falsa (em B, pH > pKa, o ácido está ionizado)
  • IV (B, base, melhor absorção): correta
  • V (A, ácidos e bases semelhantes): falsa
  • Correta: I e IV → alternativa c
Atividade 3: dose de ataque de paracetamol (100 kg)
  • Vd = 67 L/70 kg → para 100 kg: 67 × 100 ÷ 70 ≈ 95,7 L
  • DA = Vd × Cp: 95,7 × 10 ≈ 957 mg; 95,7 × 20 ≈ 1.914 mg → faixa terapêutica
  • Tóxico (> 300 mg/L) exigiria ≈ 28.700 mg
  • 1.500 mg está dentro da faixa terapêutica: dose efetiva, não tóxica
Atividade 4: biotransformação (gabarito: alternativa b)
  • I falsa (o principal local é o fígado, não o intestino)
  • II correta (pró-fármacos ativados na Fase I)
  • III correta (Fase I expõe grupos funcionais polares)
  • IV falsa (Fase II torna mais hidrossolúvel, não mais lipossolúvel)
  • V correta (indutores/inibidores de enzimas microssomais)
  • Correta: II, III e V → alternativa b

🎯 Ficha-resumo para revisão rápida (30s antes da prova)

📖 Glossário rápido

Absorção — transferência do fármaco do local de administração para a corrente sanguínea
Acroleína — metabólito tóxico da ciclofosfamida que se acumula nas células renais
Albumina — proteína plasmática que liga fármacos ácidos
Alfa-1-glicoproteína ácida — proteína plasmática que liga fármacos básicos
Biodisponibilidade — fração do fármaco inalterado que chega à circulação sistêmica
Biotransformação — conversão metabólica do fármaco, em geral hepática, em formas hidrossolúveis
Bôlus — injeção intravenosa em dose grande
CYP (citocromo P450) — sistema enzimático hepático da biotransformação
Dose de ataque — dose inicial maior (DA = Vd × Cp) para atingir rápido a concentração terapêutica
Dose de manutenção — dose que mantém a concentração terapêutica após a de ataque
Efeito de primeira passagem — biotransformação hepática/intestinal do fármaco oral antes da circulação sistêmica
Enteral — vias com absorção no TGI: oral, sublingual, retal
Equivalência farmacêutica — mesmo fármaco, dosagem e forma farmacêutica
Farmacocinética — estudo do que o organismo faz com o fármaco
Fase I — oxidação, redução ou hidrólise que expõe grupo polar
Fase II — conjugação com ácido glicurônico, sulfúrico, acético ou aminoácido
Forma farmacêutica — veículo do fármaco (comprimido, cápsula, xarope, pomada, etc.)
Glicoproteína P — transportador que expulsa fármacos das células (transporte reverso)
Henderson-Hasselbalch — equação que relaciona pH, pKa e proporção ionizada/não ionizada
Indução enzimática — aumento do metabolismo de fármacos, reduzindo sua atividade
Inibição enzimática — redução do metabolismo, aumentando o efeito de outros fármacos
Ionizado — forma carregada, hidrossolúvel, não atravessa membranas
Levodopa — fármaco de Parkinson que atravessa a barreira hematoencefálica por transportador
Não ionizado — forma sem carga, lipossolúvel, absorvida
Parenteral — vias com agulha: IV, IM, SC, ID
pKa — constante de dissociação; pH em que 50% do fármaco está ionizado
Polimorfismo — variação genética da atividade enzimática entre indivíduos
Pró-fármaco — forma inativa ativada por biotransformação (ex.: clopidogrel)
t½ (meia-vida) — tempo para a concentração plasmática cair à metade; sobe com o Vd
Tópica — vias de efeito localizado: cutânea, respiratória, conjuntival, genitourinária
Vd (volume de distribuição aparente) — volume hipotético para conter o fármaco na concentração plasmática (Vd = DA ÷ Cp)
Êmese — vômito