💊 Guia de Estudo — Farmacologia · Unidade 3

Farmacocinética II · Dra. Elaine Campana Sanches Bornia · UniCesumar · Nutrição

💊 Farmacocinética II: como o fármaco sai do corpo, quando vira tóxico e como se dosa

A excreção (principalmente renal) encerra a ação do fármaco e explica interações, manobras de pH urinário e toxicidade. A unidade fecha com efeitos adversos x tóxicos, alergias, antídotos e Farmacometria (PK/PD).

🚰 Vias de excreção e função renal (néfron e clearance)▶
Vias de eliminação
  • Rim = órgão mais importante para excreção de fármacos e metabólitos
  • Fezes: fármacos orais não absorvidos; também metabólitos pela bile
  • Leite materno: pode causar efeito indesejável no lactante
  • Pulmões: fármacos voláteis
  • Papel menor: salivar, sudorípara, lacrimal e nasal
Ponto de prova: rim = principal via; pulmão = voláteis; fezes = não absorvidos (+ bile).
Néfron e irrigação
  • Néfron = unidade funcional do rim: região glomerular (Cápsula de Bowman), túbulo proximal, alça de Henle, túbulo distal e ducto coletor
  • Sangue chega pela arteríola aferente → filtração no glomérulo
  • Túbulos e ducto coletor: secreção tubular ativa e reabsorção tubular passiva
  • ~20% do plasma é filtrado; os outros 80% seguem pela arteríola eferente → capilares peritubulares (secreção proximal ativa)
Depuração (Clearance) renal
  • Quantifica quantidade e velocidade de eliminação renal do fármaco
  • Fórmula: CLren = (Cu × Vu) / Cp
  • Cu = concentração urinária · Vu = velocidade do fluxo urinário · Cp = concentração plasmática
  • Posologia e dose dependem muito da função renal (filtração + secreção + reabsorção)
Ponto de prova: Cu e Vu no numerador; Cp no denominador. Ex.: Cu 3, Vu 2, Cp 10 → CL = 6/10 = 0,6.
Pegadinha: não confundir com 3×2 = 6 (esquecer de dividir por Cp) nem com 2,0 (o próprio Vu).
Penicilina + probenecida (exemplo clássico)

A indústria associa penicilinas a probenecida (uricosúrico): ambas usam o transportador OAT; a probenecida compete e reduz a secreção tubular da penicilina, aumentando sua permanência na circulação e a eficácia.

🧠 Questionário — Vias de excreção e função renal (5 perguntas)

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🔬 Filtração, secreção, reabsorção e manipulação do pH urinário▶
1) Filtração glomerular
  • Só passa a fração não ligada a proteínas (ex.: albumina) pelos microporos da Cápsula de Bowman
  • Extensão da filtração ∝ taxa de filtração glomerular × fração livre
  • Ex.: ligação de 95% à albumina → só 5% no filtrado
  • Capilares permitem passagem de moléculas < 20.000 Da; albumina (68.000 Da) é retida
  • Lipossolubilidade, ionização e pH não influenciam a passagem ao filtrado
Pegadinha: o pH e a ionização importam na reabsorção, não na filtração.
2) Secreção tubular ativa (túbulo proximal)
  • Capilares peritubulares → lúmen tubular, por 2 sistemas independentes e pouco seletivos
  • OAT: fármacos ácidos (forma aniônica) · OCT: bases orgânicas (forma catiônica protonada)
  • ≥80% do fármaco que chega ao rim é apresentado ao transportador → mecanismo mais efetivo, mesmo com forte ligação a proteínas
OAT (ácidos)OCT (bases)
Ác. p-amino-hipúrico, furosemida, conjugados (glicurônico, glicina, sulfato), indometacina, metotrexato, penicilina, probenecida, diuréticos tiazídicos, ácido úricoAmilorida, dopamina, histamina, mepacrina, morfina, petidina, amônio quaternário, quinina, serotonina (5-HT), triantereno
Ponto de prova: transportadores não seletivos → interações entre fármacos que usam o mesmo sistema.
3) Reabsorção tubular e pH urinário
  • Ocorre mais no túbulo distal (grande superfície luminal e muitas mitocôndrias)
  • Depende de pKa, coeficiente de partição óleo/água, afinidade a proteínas e pH urinário
  • Forma não ionizada = melhor reabsorvida; para excretar, a molécula deve estar ionizada
FármacoManobraExemplo
Ácido fracoAlcalinizar a urinaFenobarbital → bicarbonato
Base fracaAcidificar a urinaAnfetamina/metanfetamina → NH₄Cl
Pegadinha: não é "ácido com ácido": ácido fraco precisa de urina alcalina. Regra: o oposto do caráter do fármaco.
Interações na excreção renal

Podem ocorrer por: afinidade a proteínas plasmáticas (altera a filtração), inibição da secreção tubular e alteração do fluxo/pH urinário.

🧠 Questionário — Filtração, secreção, reabsorção e pH (5 perguntas)

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🥛 Excreção biliar, leite materno e outras vias▶
Bile e circulação êntero-hepática
  1. Fígado transfere fármacos à bile por transportadores (cátions/ânions) semelhantes aos renais, ou por conjugação com ácido glicurônico
  2. No intestino, bactérias hidrolisam o glicuronídeo, liberando o fármaco ativo
  3. Fármaco reabsorvido → circulação êntero-hepática (reservatório, prolonga a ação)
  4. O que não é hidrolisado sai nas fezes
Leite materno
  • Leite é mais ácido que o plasma → bases fracas se concentram no leite; ácidos fracos ficam em baixa concentração
  • Não eletrolíticos (ex.: etanol) atingem a mesma concentração do plasma, independente do pH
Ponto de prova: leite ácido (pH 6,6 no exercício) × plasma (~7,4) → base fraca = maior risco ao lactente.
Resumo comparativo das vias
ViaDestaque
RenalPrincipal; filtração + secreção + reabsorção
Biliar/fecalConjugados; circulação êntero-hepática
PulmonarVoláteis
LeiteToxicidade ao lactente
Suor, saliva, lágrimas, nasalPapel pequeno
🧠 Questionário — Bile, leite e outras vias (5 perguntas)

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☠️ Efeitos adversos, tóxicos, alergias e antídotos▶
Espectro dos efeitos dos fármacos
  • Desejáveis × Indesejáveis → não prejudiciais (adversos/colaterais) ou prejudiciais (tóxicos: farmacológicos, patológicos, genotóxicos)
  • Adversos/colaterais: previsíveis, ligados ao mecanismo geral. Ex.: n-butil-escopolamina → xerostomia (incomoda, não é deletéria)
  • Tóxicos: relacionados a dose elevada e tempo de exposição
  • IT (Índice Terapêutico) e MS (Margem de Segurança) vêm de DE e DL; IT e MS altos = menor chance de intoxicação
Tipos de efeito tóxico
TipoCaracterísticaExemplo
FarmacológicoDose acima da terapêutica (dose-dependente) ou uso prolongadoBarbitúricos (ansiedade↓ → sedação → sonolência → coma); discinesia tardia por antipsicóticos
PatológicoDano celular irreversívelParacetamol em dose alta → NAPQI hepatotóxico
GenotóxicoLesão do DNA (mutagenicidade/carcinogenicidade); irreversívelQuimioterápicos, radiações ionizantes
Ponto de prova: antídotos/antagonistas podem bloquear efeitos farmacológicos e patológicos; o genotóxico, uma vez ocorrido, é irreversível.
Paracetamol e NAPQI

Dose terapêutica: sulfato e glicuronídeo. Via CYP → NAPQI (intermediário tóxico); neutralizado pela glutationa (→ ácido mercaptúrico). Com dose alta, a glutationa se esgota e NAPQI liga-se a macromoléculas celulares nucleofílicas → morte celular (necrose hepática).

Reações alérgicas (Gell e Coombs)

Alergia = reação adversa imunomediada: fármaco (ou metabólito) + proteínas endógenas → complexo antigênico → anticorpos; na reexposição, antígeno-anticorpo. Representam ~1/3 das RAMs; raras, mas de alta morbimortalidade.

TipoNomeExemplosMediadores
IImediata/anafiláticaAnafilaxia, asma, urticária, dermatite atópicaIgE
IICitolítica (anticorpos)Anemia hemolítica autoimune, Goodpasture, eritroblastose fetalIgG/IgM + complemento
IIIImunocomplexosDoença do soro, Arthus, nefrite lúpicaIgG + complemento
IVTardiaRejeição de transplante, dermatite de contato, tuberculoseLinfócitos T, macrófagos, histiócitos
Antídotos (Quadro 2)
EstratégiaExemplo
Antagonismo da ação tóxicaAtropina (antagonista muscarínico) na intoxicação por anticolinesterásicos
Remover estresse oxidativoN-acetilcisteína substitui a glutationa no paracetamol
Alvo alternativoCianeto: nitrito de sódio (metemoglobina → cianometemoglobina) e tiossulfato de sódio (tiocianato, excretado na urina)
Diminuir ativação metabólicaFomepizol inibe álcool-desidrogenase → menos ácido fórmico (metanol)
Restabelecer alvo alteradoPralidoxima reativa a acetilcolinesterase (organofosforados)
QuelantesDimercaprol (mercúrio, arsênico); EDTA cálcico (chumbo); complexo excretado na urina
Pegadinha: quelantes não são específicos (podem quelar zinco) e têm efeitos adversos próprios; só se usam quando o benefício supera o risco. Fomepizol é do metanol, não do paracetamol.
🧠 Questionário — Efeitos tóxicos, alergias e antídotos (5 perguntas)

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📐 Farmacometria (PK/PD) e exercícios da unidade▶
Conceitos de Farmacometria
  • Ramo da farmacologia que define quanto e com que frequência administrar, e permite avaliar e comparar segurança e eficácia
  • PK (dose-concentração): absorção, distribuição, eliminação · PD (concentração-efeito): resposta máxima e sensibilidade (Unidade 4)
  • A concentração liga PK e PD; a meta é efeito terapêutico sem toxicidade
  • Pré-clínica: curvas dose-resposta; clínica: ensaios comparativos, randomizados e duplo-cegos
  • Variação individual (fenotípica/funcional) condiciona o intervalo de dose
  • Monte Carlo: simulação por software que expande a amostra e prevê o alvo terapêutico
FaixaEfeito
SupraterapêuticaTóxico
TerapêuticaDesejado
SubterapêuticaSem efeito
Exercícios resolvidos
  1. Cloreto de amônio (ác. fraco) na metanfetamina (base fraca): acidifica a urina, protona/ioniza o fármaco, reduz a reabsorção e aumenta a excreção renal.
  2. Lactação: leite (pH 6,6) é mais ácido que o plasma → prescrever a base fraca (pKa 4,6) concentraria mais no leite; o ácido fraco ficaria em baixa concentração.
  3. Clearance: (3 × 2)/10 = 0,6 → alternativa c.
  4. Antídoto do paracetamol: acetilcisteína → c.
  5. Farmacometria: I e II verdadeiras e II justifica I → a.
🧠 Questionário — Farmacometria e PK/PD (5 perguntas)

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🎯 Ficha-resumo (30s antes da prova)

📖 Glossário rápido

Antídoto — substância que bloqueia ou reverte um efeito tóxico
Atropina — antagonista muscarínico, antídoto de anticolinesterásicos
Circulação êntero-hepática — reabsorção intestinal do fármaco liberado da bile
Clearance (CLren) — velocidade de eliminação renal; Cu×Vu/Cp
Cu / Vu / Cp — conc. urinária / fluxo urinário / conc. plasmática
DE / DL — dose efetiva / dose letal
Discinesia tardia — efeito tóxico de antipsicóticos por tempo de uso
Efeito adverso (colateral) — previsível, não prejudicial
Efeito genotóxico — lesão do DNA, irreversível
EDTA cálcico — quelante usado no chumbo
Farmacodinâmica (PD) — relação concentração-efeito
Farmacocinética (PK) — relação dose-concentração
Farmacometria — define dose e frequência com PK/PD
Fomepizol — inibe álcool-desidrogenase; antídoto do metanol
Glicuronídeo — conjugado do ácido glicurônico, excretado pela bile
Glutationa — neutraliza o NAPQI
Índice Terapêutico (IT) — razão entre DL e DE; maior = mais seguro
Margem de Segurança (MS) — distância entre dose efetiva e letal
Metemoglobina — liga cianeto, formando cianometemoglobina
Monte Carlo — simulação de resultados terapêuticos por software
N-acetilcisteína — antídoto do paracetamol
NAPQI — metabólito hepatotóxico do paracetamol
Néfron — unidade funcional do rim
OAT — transportador de fármacos ácidos
OCT — transportador de fármacos básicos
Pralidoxima — reativa a acetilcolinesterase
Probenecida — uricosúrico que reduz a secreção de penicilina
Quelantes — ligam metais; complexo excretado na urina
Reabsorção tubular — retorno passivo de fármaco não ionizado ao sangue
Secreção tubular ativa — transporte ao lúmen tubular via OAT/OCT
Tiossulfato de sódio — converte cianeto em tiocianato
Xerostomia — boca seca; efeito colateral da n-butil-escopolamina