farmacologia_unid03_resumo
Farmacocinética II: Eliminação, Toxicidade e Farmacometria
Introdução
Esta unidade aprofunda o estudo da farmacocinética, focando na etapa final: a excreção de fármacos. Exploraremos os mecanismos de toxicidade, as opções terapêuticas para intoxicações e introduziremos os conceitos de Farmacometria para otimizar o uso de medicamentos. Compreender a eliminação é crucial para prever a duração da ação de um fármaco, identificar potenciais toxicidades e até mesmo manipular o pH urinário para auxiliar na excreção.
Vias de Eliminação de Fármacos
A eliminação de fármacos do organismo ocorre através de diversas vias, sendo o rim o órgão principal.
- Fezes: Fármacos não absorvidos pela via oral são excretados principalmente pelas fezes.
- Bile: Metabólitos de fármacos podem ser excretados pela via biliar, provenientes do fígado.
- Leite Materno: A excreção pelo leite materno é importante, pois pode causar efeitos indesejáveis no lactante. O leite materno é mais ácido que o plasma, concentrando fármacos mais alcalinos. Compostos não eletrolíticos como o etanol atingem a mesma concentração do plasma no leite.
- Pulmões: Importantes na eliminação de fármacos voláteis.
- Outras Vias (Papel Menor): Salivar, sudorípara, lacrimal e nasal.
Excreção Renal
O rim é o principal órgão para a excreção de fármacos e seus metabólitos. O processo ocorre nos néfrons, as unidades funcionais dos rins.
Processos no Néfron
- Filtração Glomerular: Ocorre na região glomerular. Moléculas de fármacos livres (não ligadas a proteínas plasmáticas) com peso molecular inferior a 20.000 Da atravessam os microporos da Cápsula de Bowman. A extensão da filtração é proporcional à taxa de filtração glomerular e à fração livre do fármaco. Alipossolubilidade, ionização e pH urinário não influenciam esta etapa.
- Secreção Tubular Ativa: Ocorre nos túbulos (principalmente no túbulo proximal) e nos ductos coletores. Moléculas maiores que 20.000 Da ou ligadas a proteínas plasmáticas são transferidas dos capilares peritubulares para o lúmen tubular por sistemas de transportadores:
- OAT (Transportador de Fármacos Ácidos): Transporta fármacos ácidos na forma aniônica negativa.
- OCT (Transportador de Fármacos Básicos): Transporta bases orgânicas na forma protonada catiônica. Este é um mecanismo de eliminação renal potencialmente muito efetivo, pois pelo menos 80% do fármaco que chega aos rins é apresentado aos transportadores.
- Reabsorção Tubular Passiva: Ocorre principalmente nas células do túbulo distal. Fármacos que permanecem na forma não ionizada e lipossolúvel são melhor reabsorvidos. A extensão da reabsorção é influenciada pelas propriedades físico-químicas do fármaco (pKa, coeficiente de partição óleo/água, afinidade às proteínas) e pelo pH urinário.
Depuração ou Clearance Renal (CLren)
Quantifica a quantidade e a velocidade de eliminação de um fármaco ou seus metabólitos pelos rins.
Onde:
: Clearance renal𝐶 𝐿 𝑟 𝑒 𝑛 : Concentração urinária do fármaco𝐶 𝑢 : Velocidade do fluxo urinário𝑉 𝑢 : Concentração plasmática do fármaco𝐶 𝑝
O cálculo da posologia e dose de medicamentos depende amplamente da função renal.
Manipulação do pH Urinário
A manipulação do pH da urina pode ser usada para alterar a forma ionizada do fármaco no lúmen tubular, minimizando a reabsorção e aumentando a depuração.
- Ácidos Fracos: A alcalinização da urina (ex: com bicarbonato) aumenta a forma ionizada, diminuindo a reabsorção e acelerando a excreção. Exemplo: intoxicação por fenobarbital.
- Bases Fracas: A acidificação da urina (ex: com
) aumenta a forma ionizada (protonada), aumentando a excreção renal. Exemplo: intoxicação por anfetamina.𝑁 𝐻 4 𝐶 𝑙
Interações Medicamentosas na Eliminação Renal
Como os transportadores tubulares (OAT e OCT) não são seletivos, fármacos que utilizam o mesmo sistema de transporte podem sofrer interações medicamentosas. Essas interações podem ocorrer por:
- Afinidade de ligação a proteínas plasmáticas, alterando a filtração.
- Inibição da secreção tubular.
- Alteração do fluxo e/ou pH urinário.
Outras Vias de Eliminação
- Via Biliar e Circulação Êntero-Hepática: Fármacos do plasma são transportados para a bile através de sistemas similares aos renais ou após conjugação hepática com ácido glicurônico. No intestino, o glicuronídeo pode ser hidrolisado por bactérias, liberando o fármaco ativo que pode ser reabsorvido, prolongando sua ação. Fármacos não hidrolisados são eliminados nas fezes.
Efeitos dos Fármacos: Desejáveis, Adversos e Tóxicos
O uso de fármacos pode gerar efeitos que vão além da ação farmacológica prevista.
- Efeitos Desejáveis: A ação farmacológica esperada e benéfica.
- Efeitos Indesejáveis:
- Efeitos Adversos (ou Colaterais): Previsíveis e relacionados ao mecanismo geral de ação do fármaco. São geralmente não prejudiciais, embora possam ser incômodos (ex: boca seca com n-butil-escopolamina).
- Efeitos Tóxicos: Prejudiciais, geralmente relacionados a doses elevadas ou tempo de exposição prolongado.
- Reações Alérgicas: Reações adversas mediadas pelo sistema imune, onde o fármaco ou seu metabólito se combina com proteínas endógenas formando complexos antigênicos. Classificadas em quatro tipos (Gell e Coombs):
- Tipo I: Hipersensibilidade imediata ou anafilática (mediada por IgE).
- Tipo II: Hipersensibilidade mediada por anticorpos ou reações citolíticas (mediada por IgG ou IgM e complemento).
- Tipo III: Hipersensibilidade mediada por imunocomplexos (mediada por IgG e complemento).
- Tipo IV: Hipersensibilidade tardia (mediada por linfócitos T, macrófagos e histiócitos).
Classificação dos Efeitos Tóxicos
- Efeito Tóxico Farmacológico: Ocorre com elevação da dose acima da terapêutica ou prolongamento do tempo de uso. Ex: sonolência evoluindo para coma com barbitúricos; discinesia tardia com antipsicóticos.
- Efeito Tóxico Patológico: Geralmente associado a dano celular irreversível, mesmo em doses terapêuticas em alguns casos. Ex: hepatotoxicidade do paracetamol em doses elevadas devido à produção do metabólito NAPQI.
- Efeito Tóxico Genotóxico: Lesão ao DNA, causando mutagenicidade ou carcinogenicidade. Fármacos quimioterápicos podem ter esse efeito. É geralmente irreversível.
Índice Terapêutico (IT) e Margem de Segurança (MS)
- Índice Terapêutico (IT): Relação entre a dose letal (
) e a dose efetiva (𝐷 𝐿 ) (𝐷 𝐸 ).𝐼 𝑇 = 𝐷 𝐿 / 𝐷 𝐸 - Margem de Segurança (MS): Relação entre a dose tóxica e a dose efetiva.
Medicamentos com IT e MS altos apresentam menor probabilidade de causar intoxicações.
Antídotos e Estratégias de Tratamento de Intoxicações
Nem toda intoxicação possui um antídoto específico. Quando disponíveis, antídotos podem reverter ou minimizar efeitos tóxicos.
Estratégias de Utilização de Antídotos
- Antagonismo Farmacológico: Bloqueio da ação tóxica (ex: atropina na intoxicação por anticolinesterásicos).
- Remoção do Estresse Oxidativo: Substituto de cofatores endógenos (ex: N-acetilcisteína como substituto da glutationa na intoxicação por paracetamol).
- Oferta de Alvo Alternativo: Formação de complexos menos tóxicos (ex: nitrito de sódio e tiossulfato de sódio na intoxicação por cianeto).
- Diminuição da Ativação Metabólica: Inibição de enzimas responsáveis pela formação de metabólitos tóxicos (ex: fomepizol inibindo a álcool-desidrogenase na intoxicação por metanol).
- Restauração do Alvo Alterado: Reativação de enzimas inibidas (ex: pralidoxima reativando a acetilcolinesterase inibida por organofosforados).
- Quelantes: Formação de ligações covalentes com íons metálicos para facilitar sua excreção (ex: Dimercaprol para mercúrio e arsênico; EDTA para chumbo).
Farmacometria
É o ramo da farmacologia que estabelece a dosagem (quanto e com que frequência administrar um fármaco) para obter o efeito desejado, permitindo a avaliação da segurança e eficácia.
Relação Dose-Concentração-Efeito
A farmacometria utiliza os conceitos de Farmacocinética (PK) e Farmacodinâmica (PD) para otimizar regimes de dosagem.
- Farmacocinética (PK): Estuda a relação dose-concentração (absorção, distribuição, metabolismo, eliminação). Determina a rapidez e a duração da presença do fármaco no órgão-alvo.
- Farmacodinâmica (PD): Estuda a relação concentração-efeito. Determina a magnitude da resposta em uma determinada concentração.
O objetivo é manter a concentração do fármaco em um nível que garanta a resposta biológica útil sem atingir a toxicidade.
Modelos Matemáticos em Farmacometria
- Curvas Dose-Resposta: Utilizadas em fases experimentais para quantificar o efeito farmacológico.
- Ensaios Clínicos: Comparação do fármaco em estudo com outros tratamentos em grupos aleatórios e duplo-cegos.
- Método de Monte Carlo: Utiliza plataformas de simulação para expandir amostras de estudos e prever resultados prováveis do tratamento, considerando diversas variáveis (dose, frequência, condição clínica).
A farmacometria e a farmacocinética são pilares para a dosagem racional, considerando a variabilidade individual na resposta aos medicamentos.
Considerações Finais
A eliminação de fármacos é um processo essencial que determina o fim de sua ação no organismo. O conhecimento das vias de eliminação é fundamental para otimizar a terapêutica, aumentar a eficácia e minimizar a toxicidade. Efeitos adversos e tóxicos, bem como reações alérgicas, podem ocorrer e exigem atenção clínica. A farmacometria, integrando PK e PD, oferece ferramentas para a individualização da terapia farmacológica, visando o máximo benefício terapêutico com o mínimo de riscos.